Combater a fome é uma escolha política, diz presidente do Brasil em evento do G20 no Rio

RIO DE JANEIRO, 25 de julho de 2024 (WAM) -- O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, apresentou na quarta-feira, no Rio de Janeiro, o pré-lançamento de uma aliança global contra a fome e a pobreza. Ele descreveu a iniciativa como uma das principais prioridades brasileiras em sua atual presidência do G20.

''A fome não resulta apenas de fatores externos, ela decorre, sobretudo, de escolhas políticas. Hoje o mundo produz alimentos mais do que suficientes para erradicá-la. O que falta é criar condições de acesso aos alimentos”, disse, segundo a Agência Brasil.

Presidentes de bancos multilaterais, delegações do exterior, ministros brasileiros e membros de agências da ONU participaram do evento no Rio de Janeiro. O estabelecimento formal da aliança deve acontecer ainda este ano, quando os líderes mundiais se reunirão para a cúpula das 20 principais nações em desenvolvimento na cidade, de 18 a 19 de novembro.

Ao discutir o tema, Lula destacou que os gastos com armamentos aumentaram 7% em 2023, chegando a US$ 2,4 trilhões. "Inverter essa lógica é um imperativo moral, de justiça social, mas também essencial para o desenvolvimento sustentável”, acrescentou o presidente brasileiro.

De acordo com um comunicado da assessoria de imprensa do G20 no Brasil, a iniciativa tem como objetivo implementar um mecanismo para mobilizar fundos e conhecimento para apoiar a expansão de políticas e programas de combate à desigualdade e à pobreza. Até 2030, a aliança será administrada por um secretariado localizado nas sedes da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês) em Roma e Brasília, com metade dos custos cobertos pelo Brasil, disse Lula em seu discurso.

“Quero registrar minha gratidão aos países que já se dispuseram a contribuir com este esforço”, declarou o presidente brasileiro. Ele explicou que a aliança não criará novos fundos, mas que os recursos globais e regionais que já existem e estão dispersos serão redirecionados para as políticas estatais de cada nação.

O presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, manifestou seu apoio à iniciativa durante uma conversa bilateral com Lula, de acordo com um comunicado da presidência do Brasil. A Organização anunciou que será o principal parceiro de conhecimento da Aliança Global do G20 contra a Fome e a Pobreza. ''Simplificando: a fome e a pobreza estão entrelaçadas. Precisamos enfrentá-las e trabalhar duro para livrar nosso mundo de ambas'', disse Banga.

Marcelo Cândido da Silva, professor de História da Universidade de São Paulo e vice-coordenador de um projeto internacional de pesquisa contra a fome, afirmou que as questões de segurança alimentar e pobreza estão presentes em todo o Brasil, desde a Amazônia até os grandes centros urbanos. Esse cenário, conforme explicou da Silva, significa que o país pode trazer conhecimento para a discussão global.

O último relatório ''Situação da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo'', publicado na quarta-feira por cinco agências especializadas das Nações Unidas, revelou que cerca de 733 milhões de pessoas enfrentaram a fome em 2023. Esse número é equivalente a um em cada onze indivíduos em todo o mundo – e um a cada cinco na África. O documento foi divulgado no Rio, onde Qu Dongyu, diretor-geral da FAO, elogiou o presidente do Brasil por trazer a segurança alimentar para o centro da agenda do G20.

O texto alerta que o mundo está muito aquém de atingir o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 2, Fome Zero, até 2030. Ele constata um retrocesso de 15 anos, com níveis de subnutrição comparáveis aos de 2008-2009.

Em uma declaração que acompanha o lançamento do documento, a diretora-executiva do Programa Mundial de Alimentos da ONU, Cindy McCain, disse que a erradicação da fome é viável. ''Um futuro livre da fome é possível se conseguirmos reunir os recursos e a vontade política necessários para investir em soluções comprovadas de longo prazo. Peço aos líderes do G20 que sigam o exemplo do Brasil e priorizem ações globais ambiciosas contra a fome e a pobreza'', declarou.

O tema do relatório de 2024, ''Financiamento para acabar com a fome, a insegurança alimentar e todas as formas de desnutrição'', enfatizou que a realização do ODS 2 ''Fome Zero'' requer uma abordagem multifacetada, incluindo a transformação e o fortalecimento dos sistemas agroalimentares, o enfrentamento das desigualdades e a garantia de dietas saudáveis acessíveis e econômicas para todos, conforme explicado pela FAO.

A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação pediu um financiamento maior e mais econômico, com uma definição clara e padronizada para segurança alimentar e nutrição.